pois é o pensamento conceitual,
a palavra conceitual,
a palavra conceitual,
que tem
infelizmente dividido os homens.”
(Jiddu Krishnamurti)
“Para cada ser humano há um mundo perfeito
feito
especialmente para ele ou para ela.”
(Zygmunt Bauman)
“Se você tem alguma ideologia para se definir,
você não é
livre. Liberdade significa nenhuma definição.”
(Osho)
Tenho uma amiga que mudou de religião. Depois que se converteu, passou a me enviar mensagens
todos os dias. Mesmo sabendo que eu havia escolhido um caminho mais holístico,
ligado a mestres universalistas, mesmo assim ela queria me converter (nosso
mundinho tridimensional funciona assim: as pessoas se encaixotam seja numa
religião, seja numa ideologia que consideram conveniente, e ficam insistindo
com os outros para aderirem, para entrarem na mesma caixa delas.
Espiritualmente falando - e psicologicamente também -, isso tem um nome:
chama-se insegurança).
Pensei com meus botões: podemos fazer uma boa troca.
Passei a escolher aquelas mensagens espiritualistas que mais me tocavam, de
vários mestres, bem profundas, e mandava também para ela. Notei que ela mudou.
Passou a querer debater e entrou no nível do tipo “meu mestre é melhor que o seu!”
Calmamente, tentei, com a maior suavidade e tato que
consegui reunir (de fato, não queria perder a amizade dela, só não queria tê-la
como minha mentora espiritual), mostrar-lhe outras visões. Não obtive
sucesso. Ela continuou com muita raiva porque não queria ler nem ouvir nada com
relação a tudo aquilo que pudesse colocar em cheque suas crenças, que se transformaram (obviamente), no mais flagrante e puro fanatismo. Essa pessoa, ao escrever, projetava em mim a raiva, a revolta,
a insegurança que ela sentia quando lhe chegavam os textos escolhidos por mim. Ficava evidente o medo. Típico
de alguém que se acercou de uma verdade e não enxerga a verdade do outro. Ela
só projetava, num comportamento “polarizado” (para usar esse termo
da moda) cuja mensagem principal era: “Eu estou certa e você está errada!” "Venha para a minha corrente!"
Bem, como não sou de
catequizar ninguém, continuei sem entrar na disputa e tentando falar da relatividade das coisas. Ela não entendeu e preferiu passar um
tempo sem me ver.
A capacidade de observar-se a si mesmo deveria ser o que temos de melhor. Por que fugimos dessa capacidade e caímos no velho e cômodo dualismo? Porque olhar para si mesmo assusta. Não queremos ver a própria sombra. Essa negação tem um preço: aquilo que negamos ganha força. A sombra se avoluma. Sombras individuais somadas = sombra da humanidade multiplicada. E ainda nos assombramos com o grau de superficialidade do mundo? Ainda nos assombra a violência?
Leia - e tente refletir sobre este texto de Deepak Chopra, falando sobre a sombra:
"Uma vez, durante uma palestra do notável professor espiritual J. Krishnamurti, alguém na plateia levantou para fazer uma pergunta:
- Quero paz no mundo. Abomino a guerra. O que posso fazer para ajudar a alcançar a paz?
- Pare de ser a causa da guerra - respondeu Krishnamurti.
O espectador ficou perplexo.
- Não sou a favor da guerra. Só quero a paz.
Krishnamurti sacudiu a cabeça.
- Dentro de você está a causa de todas as guerras. É sua violência, oculta e negada, que conduz às guerras de todo tipo, seja dentro de seu lar, contra outros da sociedade ou entre nações.
Sua resposta nos deixa incomodados, mas acho que é verdadeira, pois o rishi védico proclamou:
- Você não está no mundo. O mundo está em você.
Se é assim, portanto, a violência do mundo está em cada um de nós. Antes de surgir o conceito de sombra, tal afirmação teria parecido mística. Mas, uma vez que você está participando do self compartilhado, também consegue ver que todos os impulsos de raiva, medo, ressentimento e agressão seguem diretamente de você ao inconsciente coletivo e depois voltam."
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“É tão difícil observar-se a si mesmo
quanto olhar para
trás sem se voltar.” - Henry David Thoreau
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Como perceber a própria sombra? Observar-se incansavelmente. Com coragem.
Apaixonou-se por uma ideia? Abraçou uma ideologia ao ponto de começar a pensar em "nós-versus-eles"? Perdeu
o discernimento – a sombra está aí.
Projetou no outro algum sentimento negativo? – a sombra está aí.
Insiste no pensamento do tipo “coitados, não sabem o que
fazem, são ignorantes”? – a sombra está aí.
A sombra se insinua sempre que nos divide e sempre que
pensamos em termos de “está claro para mim que a verdade é assim – você é que
não quer enxergar”.
Diz o militante fanático: “Ah, mas eu sou militante político e tenho obrigação de
abrir os olhos dos ignorantes e cegos!”
O fanático religioso não pensa diferente: “Ah, mas eu sigo a igreja tal, tive a minha vida
transformada e tenho obrigação de abrir os olhos dos ignorantes
e cegos!”
Pergunto eu aqui: desde quando se impõe a verdade, seja ela religiosa, política, filosófica? Veja uma criança. Quanto mais você impõe coisas a uma criança,
mais rebelde ele se torna. Faça-a pensar. E aí ela poderá escolher qual o
caminho a seguir. Que poderá não ser o seu. Isso vale para tudo.
“Estamos vivendo com os destroços de ideias fracassadas
que um dia pareceram soluções perfeitas.” (Deepak Chopra- O Efeito Sombra).
Quantos equívocos seriam evitados se refletíssemos nesta frase antes de criarmos
muros e divisões do tipo “meu partido é o melhor”?
Há um antigo conto sufi que exemplifica muito bem a linha que tento seguir. Um conto quântico que me abriu muitos horizontes
internos. Sempre que minha mente quer cair no julgamento... sempre que eu sinto
vontade de insistir com alguém sobre algum ponto de vista, sempre que caio na tentação de querer rotular uma situação, ele me vem.
Reproduzo-o aqui em toda sua sabedoria:
O Julgamento
Havia numa aldeia um velho muito pobre, mas até reis o
invejavam, pois ele tinha um lindo cavalo branco... Reis ofereciam quantias
fabulosas pelo cavalo, mas o homem dizia:
“Este cavalo não é um cavalo para
mim, é uma pessoa. E como se pode vender uma pessoa, um amigo?”. O homem era
pobre, mas jamais vendeu o cavalo.
Numa manhã, descobriu que o cavalo não estava na
cocheira. A aldeia inteira se reuniu, e disseram: “Seu velho estúpido! Sabíamos
que um dia o cavalo seria roubado. Teria sido melhor vendê-lo. Que desgraça!”
O velho disse: “Não cheguem a tanto. Simplesmente digam
que o cavalo não está na cocheira. Este é o fato, o resto é julgamento. Se se
trata de uma desgraça ou de uma bênção, não sei, porque este é apenas um
julgamento. Quem pode saber o que vai se seguir?”.
As pessoas riram do velho. Elas sempre souberam que ele
era um pouco louco. Mas, quinze dias depois, de repente, numa noite, o cavalo
voltou. Ele não havia sido roubado, havia fugido para a floresta. E não apenas
isso, ele trouxera uma dúzia de cavalos selvagens consigo. Novamente, as
pessoas se reuniram e exclamaram: “Velho, você estava certo. Não se trata de
uma desgraça, na verdade provou ser uma bênção”.
O velho respondeu: “Vocês estão se adiantando mais uma
vez. Apenas digam que o cavalo está de volta... quem sabe se é uma bênção ou
não? Este é apenas um fragmento. Você lê uma única palavra de uma sentença –
como pode julgar todo o livro?”.
Desta vez, as pessoas não podiam dizer muito, mas
interiormente achavam que ele estava errado. Doze lindos cavalos tinham
vindo...
O velho tinha um único filho, que começou a treinar os
cavalos selvagens. Apenas uma semana mais tarde, ele caiu de um cavalo e
fraturou as pernas.
As pessoas se reuniram e, mais uma vez, julgaram. Elas
disseram: “Você tinha razão novamente. Foi uma desgraça. Seu único filho perdeu
o uso das pernas, e na sua velhice ele era seu único amparo. Agora você está
mais pobre do que nunca”.
O velho retrucou: “Vocês estão obcecados por julgamento.
Não se adiantem tanto. Digam apenas que meu filho fraturou as pernas. Ninguém
sabe se isso é uma desgraça ou uma bênção. A vida vem em fragmentos, mais que
isso nunca é dado”.
Aconteceu que, depois de algumas semanas, o país entrou
em guerra, e todos os jovens da aldeia foram forçados a se alistar. Somente o
filho do velho foi deixado para trás, porque era aleijado. A cidade inteira
estava chorando, lamentando-se porque aquela era uma luta perdida e sabiam que
a maior parte dos jovens jamais voltaria.
Elas vieram até o velho e disseram: “Você tinha razão, velho – aquilo se revelou uma bênção.
Seu filho pode estar aleijado, mas ainda está com você. Nossos filhos foram-se
para sempre”.
O velho respondeu: “Vocês continuam julgando. Ninguém sabe! Digam apenas que
seus filhos foram forçados a entrar para o exército e que meu filho não foi.
Mas somente Deus, a Totalidade, sabe se isso é uma bênção ou uma desgraça”.
Sair da visão fragmentada para uma visão mais abrangente... trocar a mente-que-tudo-julga pela Consciência que observa e age sem paixões exacerbadas nem militâncias de quaisquer gêneros é o grande desafio humano.
A chamada "mente zen" dos budistas não é uma utopia. É a única realidade palpável e viável, capaz de transformar nosso modelo de civilização equivocado, dualista e decadente num novo modelo, holístico, pleno. Mas a mudança de compasso é sempre muito dolorosa. Toda mudança de ponto gera choro e ranger de dentes. Olhar para si mesmo, encarar a sombra é doloroso - esta é a má notícia. A boa é que, depois de encarar a sombra, verifica-se que ela não é tão assustadora. Nosso medo dela é que a tornava mais monstruosa do que é.
Lembremos sempre: todos somos UM!